Quatro Reais
Nós tínhamos quatro reais nos bolsos. Nenhuma moeda a mais, nem a menos. Para ser mais icônico, só faltavam os botões soltos, arremedos de fios e algum tipo de clipe de papel. Eu pensava numa solução rápida enquanto ele recontava o dinheiro.
— Eu acho que com essa quantidade de dinheiro dá pra voltar.
— Dá porra nenhuma bróder — respondi prontamente, já preparado para contar-lhe meu plano.
Nós vamos fazer assim. Eu volto, pego mais dinheiro e depois venho aqui te buscar.
Era simples assim, feito achar a cura do câncer. Peguei o dinheiro da mão dele e saí já amassandos as duas notas na mão.
Ei ei ei! Calma aí, porra! Tá pensando que é assim? — disse ele, alcançando meu braço e pegando meu pulso. Logo tomou o dinheiro de minha mão e voltou ao ponto onde a luz do poste iluminava a rua.
— Caralho, qual é o problema?
— O problema é que não tenho garantia de que você vai voltar.
— Como assim não vou voltar, você acha que eu vou te esquecer aqui?! — indaguei já meio revoltado com tanta descrença.
Ele disse que sei lá, poderia ser isso ou não. Eu podia tentar fazer de sacanagem. Até parece. Naquela altura do campeonato, depois daquela presepada toda, se eu ousasse deixá-lo lá, seria mais do que sacanagem. Seria assinar um termo de compromisso com a filha da putagem. Eu não faria isso nunca!
“E por quê não posso ir antes? Deixa eu ir primeiro!” disse ele em tom desesperado. Eu não exitei em pegar o dinheiro de volta. Ele travou-o na mão. Era um cabo de força dividindo nossas vontades. Eu tinha o melhor plano e ele queria garantir que não iria se dar mal, por algum motivo que eu ainda não havia entendido. Foi aí que eu me dei conta, era puro medo. Não tinha porquê ele duvidar se não fosse por isso.
— Cara, somos amigos a quantos anos? — perguntei.
— Sei lá… Mais de dez — respondeu com suspeita.
— Porquê raios eu haveria de te zoar assim? Você realmente acha que eu deixaria você aqui? Sério mesmo, se eu pudesse dar um jeito melhor… Mas não tem como!
A essa hora ele já estava quase convencido. “Vamos lá, solta a grana e eu vou indo antes. Não demora, eu retorno com grana pros dois e te busco”. Ele concordou. Depois de muita relutancia. Então ficamos ali, embaixo da luz do poste. A rua já deserta, daquelas onde só as moças de família frequentam, inspirava um pouco de medo. É aquela sensação de que é melhor estar sozinho e abandonado, do que acompanhado por alguém suspeito. Esperávamos o onibus. Enquanto isso, conversamos sobre bobagens. Capítulos relembrados do Chaves, da época que o incêndio do SBT ainda não havia ferrado a série. Os boatos mais bobos que ouvíamos quando crianças. Até mesmo aquelas fofoquinhas bestas, sobre como ‘fulana’ ou ‘ciclana’ haviam mudado pra melhor ou pra pior. Coisas triviais.
O tempo passou rápido, logo o onibus chegou. Fui subindo e o motorista encarou a ele ali, parado na calçada. Fez cara de “e aí, vai ficar sozinho mesmo?”. Infelizmente, a cara dele era de “sim, eu me fudi e agora tenho que esperar”. Sentei logo na primeira fila, ao lado do cobrador. Era onde havia luz acesa dentro do veículo coletivo que levava o resgate embora. E, sentado ali, comecei a refletir. Como pode alguém, com uma amizade de tantos anos, duvidar desse jeito do amigo? Éramos como irmãos. Na escola não desgrudávamos por um segundo sequer, e aprendemos cedo a nos cuidar sozinhos, porém juntos. Claro que, as vezes, alguém vacilava. Como naquela noite, onde saímos sem pensar no trajeto, em quanto custaria para ir e voltar e muito menos quanto precisaríamos para entrar no show. Bom, até aí tudo bem, a culpa foi dos dois. Mas eu fiquei espantado. Realmente não entendi porquê ele não quis seguir meu plano de primeira! Se fosse ele, eu teria dado o dinheiro na mão, assim, de supetão. Sem o menor problema.
É fogo. O onibus já havia chegado, nem notei o tempo passar. Desejei boa noite a ambos motorista e cobrador e saí pela porta de trás. Caminhei os poucos metros que separavam a parada da minha casa e logo entrei. Lá dentro, ainda estava abismado, pensando sobre o ocorrido. Mas nada que uma boa noite de sono não resolvesse. Mal tirei o tênis e já fui me enfiando embaixo da coberta. Pronto, estava aquecido e pronto para dormir.
No dia seguinte, acordei tarde. Atrasado. Não sabia para o quê, mas estava atrasado. Aí então, entendi. Era por isso que ele não queria que eu fosse o resgate.