Um barman, ou bartender, como queira, sabe muito da vida dos outros. Mais até do que aquele cara que tem um programa vespertino, num canal meia boca que se sustenta com uma única atração bem sucedida. A diferença é que o mala da televisão pode dar nome aos bois, pois os animais são todos marcados como gado. Já o profissional da coquetelaria sabe de tudo, mas não pode apontar os culpados. Mas eles fazem disso um grande atrativo e, volta e meia, são reconhecidos por atributos como este, e não por servir direito. Johnny era um barman conhecido a noite paulistana. Um nome americanizado para um barman brasileiro, era uma forma de se esconder a verdade por trás do nome daquele cidadão. Era um nome escroto, quase impronunciável. E decidido de que seu pai podia ter ao menos um bom gosto mais apurado, escolhendo um nome em inglês que não fosse tão confuso e cheio de letras repetidas. Mas independentemente disso, Johnny era conhecido não pelo nome, mas por sua grande capacidade de ouvir e processar as informações que os bêbados vomitavam durante uma balada, repleta de fumaça e gente cuspindo ao dar risada.
O grande segredo de Johnny era saber ouvir e falar na hora certa. Ok, não é bem um segredo enorme. Mas é uma boa tática. Certo dia ele estava abrindo o expediente, terminando de posicionar os copos, com destaque para a organização sistematicamente planejada. Um sujeito tão certinho merece essa caralhada de adjetivos. Ela chegou e sentou-se em frente a ele no balcão do bar.
— Qual é o seu signo? — indagou a moça que mal começava a sua balada.
— Como?
— Signo. Qual é o teu?
— É capricórnio… Eu acho.
— Com esse tanto de arrumação, você lembra mais um virginiano.
Ele já havia escutado isso antes. Nem ligou muito. “Quer beber algo?”, perguntou a ela.
— Você tem Campari?
É claro que ele tinha Campari. Ela estava em um bar, não numa confeitaria. Pegou o copo com uma mão, torcendo-o e passando o vidro por debaixo do pulso e por detrás das costas, jogando o copo para a outra mão, que levantou rapidamente no ar e… Vacilou. Copo caído no chão e cacos espalhados. Sim, malabarismo nunca foi o talento dele. Mas ele sabia servir um copo, parado, como ninguém. Pegou outro copo.
— Gelo? — perguntou já com o cubo transparente na ponta do pegador.
— Claro que sim, por favor.
Ele começou a servir sob medida. Copo com gelo, Campari e um limão na borda. Dali passou a limpar a cagada que tinha feito no chão. Eis que a moça loira pergunta há quanto tempo ele trabalhava como bartender. Mais de dez anos, ele respondeu, com vergonha de dizer que já faziam quase dezesseis e ele ainda não sabia jogar copos pra cima e pegá-los direito. Era assim toda a noite.
— Você deve conhecer muita gente não é? Gente de todos os tipos. Gente estranha, gente esquisita. Gente normal, com cara de gente mesmo. Sem problema algum pra contar. Outros com história mais cabeludas do que a realidade poderia fazer acontecer. Deve ser um trabalho interessante.
— É. Dá pra escrever um livro.
— Com prefácio e tudo né? — comentou rindo.
A rapariga continuou a comentar a provável vida movimentada de Johnny. Enquanto isso, mais pessoas iam entrando, sentando no balcão e pedindo seus drinks, cervejas, nas mesas os homens levantavam para ir até ali e também fazerem seus pedidos. Tudo isso ia acontecendo, aumentando a densidade demográfica ao redor do balcão, e a mulher permanecia falando. Johnny antedia aos outros enquanto a ouvia. Ela estranhamente não parava de falar. Mesmo que ele estivesse longe. Passou da imaginação dela, sobre o que seria a rotina de um barman, tender, chester, para os motivos que a levaram até aquele bar. Eram os exnamorados, a mãe dela, irmã, uma amiga traíra que tinha lhe aplicado um chifre ao descobrir que ela tinha feito o mesmo antes. Tudo aquilo que Johnny estava acostumado a ouvir. Responderia para dar outra chance, para prestar atenção, pois, mãe só existe uma. Coisas assim. E já arquitetando um monte de respostas, ele ouve em meio as palavras chatas daquela mulher que ele já não aguentava mais, algo que lhe chamou a atenção.
Sabe porquê eu estou aqui na verdade? Um atentado. É, isso mesmo. Faço parte de um grupo, bem, não é um grupo. É uma célula, é assim que a gente chama. Uma célula ativa de uma organização muito maior, onde buscamos dar um jeito nisso tudo, sabe? Acabar de uma vez com essa merda. Essa injustiça. São tantas pessoas na rua, pedindo ajuda e sendo ignoradas. Não há governo que dê jeito! Não há medida provisória, precacional que consiga resolver isso. Inventaram cotas, métodos avançados de avaliação e a educação continua na mesma bosta. São leis e mais leis tentando dar um jeito na corrupção. Mas quem vota essas leis? Os próprios corruptos. Muito fácil. Muito fácil. Fácil, até aparecer alguém que faça algo de verdade. Algo que entre para a história. Mude o curso da humanidade! Bom, talvez não da humanidade, mas da nossa sociedade. Microsociedade, entende?
Ele não fazia ideia do que dizer. Estava perplexo. Chocado. Foram mais uns três ou quatro copos jogados no chão durante aquele papo. E ele olhava ao redor dela, onde ninguém aparentava ter se chocado. Seria possível que ninguém em volta dela tenha ouvido? Nem aquele gordo de chapéu ‘bossa nova’, nem aquela mulher do vestido exageradamente curto. Ninguém havia ouvido, ou prestado atenção.
— Me diz uma coisa, qual é o seu nome? — ela mal fechou a boca para pronunciar ‘nome’ e ele já estava gaguejando.
— Jo-jo.. John…
— John?
— Johnny.
— Prazer Johnny. Esse é seu nome mesmo?
Engoliu a lingua. Respirou fundo. Salivou mais um pouco e engasgou.
— Na-não. É Xêiquespire. — respondeu com mais vergonha do que cachorro que acaba de derrubar um vaso da dinastia Ming na sala de estar. Quando Johnny contou seu nome, dois ou três pessoas viraram o rosto para ouvir ele falar. Nisso eles prestam atenção, bando de filhos da puta.
— Como o autor?
— Autor?
— É. O Inglês, Shakespeare.
— Sim, sim. Só que escrito errado.
Ela continuou conversando. Contando coisas banais, como se não tivesse dito nada. Talvez fosse brincadeira, talvez fosse um teste. Sabe-se lá que tipo de mulher era aquela. Podia estar com várias bananas de dinamite atreladas ao tronco. Podia carregar bananas na bolsa só para suprir o potássio. Johnny ali, só pensando em duas coisas, “como ninguém ouviu e por quê raios ouviram o meu nome, caralho?”, e a moça loira continuava tagarelando. Começou a reparar na roupa. Casaco não muito grande. Não dá pra esconder uma espingarda. Talvez uma Glock, daquelas que só a CIA usa. Podia ser C4, o brinquedo do Esquadrão Delta. O agitado barman relembrou de todo o enredo dos filmes do Chuck Norris, Charles Bronson, e nada de conseguir pensar direito. Ainda estava com aquela palavra martelada. Atentado, atentado, atentado. Resolveu arriscar. Cortou a moça no meio da conversa fiada.
— De-desculpe, qual é o seu nome? — interrompeu bruscamente.
— O meu? É Lilliane.
— Ok. Lilliane. Você falou algo sobre um atentado, certo? — deu ênfase na palavra atentado. Mas ninguém parecia olhar pro lado, pra eles.
— Sim, atentado. Nada de mais. Queria poder fazer algo maior! Algo…
— Tá, tá. Olha, você tá falando sério? — perguntou ríspidamente.
— Você acha que eu brincaria com isso?
Tremeu da ponta dos cabelos à sola dos pés. O corpo inteiro. Sentiu cada pelinho do braço levantar e o destino final de sua alimentação, apertar como uma mão pronta para socar. Ele não sabia o que falar. Queria perguntar mais, saber onde seria. Mas não tinha coragem. Ela havia parado de falar e terminava seu Campari. Ele ainda ficava servindo pra um lado, pro outro. Mas queria ficar ali parado, ouvindo e pronto para saber de qualquer informação importante. Então ela só se despediu. Começou a levantar.
— Espera! Lilliane! — gritou. Ninguém olhou.
— Sim Shakespeare. — todos olharam pra ele. Que merda.
— Er… Não quer mais um drink?
— Não, obrigada.
Ofereceu por conta da casa e não adiantou. Ela saiu pela porta rebatedora e sumiu, para talvez nunca mais voltar. Seria aquela moça incrívelmente linda, porém chata, uma terrorista?! Representante de uma célula criminosa alocada no Brasil, em plena São Paulo? Talvez sim. É aquele tipo de coisa que você fica sabendo, morre de agonia por isso, mas não descobre a verdade. E passa o resto da vida assim, torcendo para que fosse um sonho. Ele preocupado. Servia pior do que nunca. Quebrou copos sem malabarimso. Serviu whisky com limão, cerveja com gelo, Martini com azeitona. Sim, Martini não tem como errar. Quem bebe Martini é fresco demais para não prestar atenção ao bartender preparando o drink. Em meio a multidão cercando o bar, uma voz masculina.
— Ei, Johnny. Seu nome é Shakespeare?
Maldita sociedade, escrota por natureza. Critica a porra do programa vespertino, o apresentador, tudo. Mas só consegue prestar atenção nas coisas desimportantes, como o próprio programa. Uma atentadora da paz e da ordem mundial sentada bem ao lado deles, e eles lembram somente do nome do Johnny. Isso sem nem saberem como se escreve Shakespeare errado.
Sabe o que é isso? A vida de um bartender. Não é a primeira vez que ele ouviu algo absurdo. Não será a última. É impossível medir a escrotisse de cada história. A improbabilidade e a probabilidade de assuntos, simplesmente, funcionam como uma roleta russa. Uma hora, mata. Outra hora, nada. E é assim, na vida de Shakespeare. Que nunca mais será o mesmo. Já que o seu apelido, não é menos humilhante que seu nome.